Sexta-feira, 3.55% de 2012.
Por duas horas ele aguardou na fila. Esperou sentado, chegou cedo para isso, e lá permaneceu até o painel pronunciar-se e anunciar a necessidade de seu movimento. Quando se levantou, o fez exausto, desabituado, apinhado de débitos e infortúnios. Morria um pouco a cada passo, e de pouco as muletas lhe serviam quando o tópico era sobrevivência. Amparado pelas duas hastes metálicas, o velho conseguia sentir que existia, mas já não havia modo de discernir como e para quem.
Nos domínios da curiosidade, ele existiu para mim. Pela infinidade daquelas duas horas de espera, e pela brevidade com a qual nossas duas vidas se obstruíram, eu me preocupei com ele. Mas tudo desmoronou quando, com aquela mão de ferro, ele desmistificou minha curiosidade, assolou a minha burocracia e pilou meus humildes cumprimentos em minúsculas migalhas. Não o fez por mal, o fez por natureza. Na dor que impôs, tentou traduzir a consternação que sentia, o sorriso que lhe era tão caro. Encarei seus olhos e me despedi solenemente, dando-me à pirraça de acompanhá-lo com os olhos e vê-lo sumir entre tantos outros e suas tantas outras muletas. Fiz isso pela certeza de não vê-lo nunca mais, pois a simples austeridade de uma mão de ferro já é presença suficiente em meus metacarpos.