13/01/2012

Mão de ferro.

Sexta-feira, 3.55% de 2012.

Por duas horas ele aguardou na fila. Esperou sentado, chegou cedo para isso, e lá permaneceu até o painel pronunciar-se e anunciar a necessidade de seu movimento. Quando se levantou, o fez exausto, desabituado, apinhado de débitos e infortúnios. Morria um pouco a cada passo, e de pouco as muletas lhe serviam quando o tópico era sobrevivência. Amparado pelas duas hastes metálicas, o velho conseguia sentir que existia, mas já não havia modo de discernir como e para quem.  

Nos domínios da curiosidade, ele existiu para mim. Pela infinidade daquelas duas horas de espera, e pela brevidade com a qual nossas duas vidas se obstruíram, eu me preocupei com ele. Mas tudo desmoronou quando, com aquela mão de ferro, ele desmistificou minha curiosidade, assolou a minha burocracia e pilou meus humildes cumprimentos em minúsculas migalhas. Não o fez por mal, o fez por natureza. Na dor que impôs, tentou traduzir a consternação que sentia, o sorriso que lhe era tão caro. Encarei seus olhos e me despedi solenemente, dando-me à pirraça de acompanhá-lo com os olhos e vê-lo sumir entre tantos outros e suas tantas outras muletas. Fiz isso pela certeza de não vê-lo nunca mais, pois a simples austeridade de uma mão de ferro já é presença suficiente em meus metacarpos.

09/01/2012

O [descarrilado] trem da alegria [2].

Sexta-feira, 2.46% de 2012.

Tenho uma intricada relação de amor e ódio com fulanos de sorriso pétreo; menos por inveja do que por saber que eles naturalmente estão no câmbio automático, e já não se incomodam em discernir o sucesso do fracasso, a razão da imposição. Tais pessoas sorriem sem nem mesmo compreenderem o que estão tentando promover, e o que antes tinha a neurológica inclinação do contágio, agora fomenta apenas comiseração e conflitos de personalidade. Eu gostaria de poder (e saber como) chacoalhá-los, apontá-los em uma direção menos maquinal, mas é com os dentes de fora que eles apertam minha mão e se dão ao benefício da estupidez; provam-me que a liberdade é mesmo um acidente muito bonito, ainda que à efemeridade de um gesto ilegítimo. Promovo a hipocrisia no exercício de meu cerne autômato e, com um sorriso convenientemente amarelo, deles me despeço.

31/12/2011

Balanços finais de 2011.

Sábado, 99.99% de 2011.

18/01, Paquistão: 7.2 na escala Richter, 2 mortos.
22/02, Christchurch (Nova Zelândia): 6.3 na escala Richter, 181 mortos.
10/03, borda sino-birmanesa: 5.5 na escala Richter, 26 mortos.
11/03, Tōhoku (Japão): 9.1 na escala Richter, 15836 mortos.
24/03, estado de Shan (Myanmar): 6.8 na escala Richter, 150 mortos.
07/04, Honshu (Japão): 7.1 na escala Richter, 4 mortos.
19/07, vale de Fergana: 5.5 na escala Richter, 14 mortos.
18/09, borda indo-nepalesa: 6.9 na escala Richter, 111 mortos.
23/10, Van (Turquia): 7.2 na escala Richter, 604 mortos.
09/11, Van (Turquia): 5.7 na escala Richter, 40 mortos.

Total: 16968 mortos no Top 10. 94.37% deles em março. Boa, março!
Parabéns Japão, pelo impressionante 93.35% de aproveitamento. E força, Turquia! Vamos transformar esse 3.8% de 2011 em pelo menos 5% no ano que vem!

30/12/2011

Nossas muitas translações.

Sexta-feira, 99.73% de 2011.

... Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial: industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente...”.

Carlos Drummond de Andrade

Acredito que Drummond fará bem ao blog. Acho digno citá-lo a esta altura, já que provavelmente jamais o fiz. Contudo, também acho digno ressaltar que não coloco muita fé nas vicissitudes do calendário, o que torna a citação irônica. Sei que o papo de resoluções de fim de ano é psicologicamente recomendável, mas o fato é que meus meses não começam ou terminam no que concerne ao tempo. Meu tempo é menos absoluto. O calendário é útil no que diz respeito à administração política, como roteiro prático da burocracia social, e é muita pretensão tomá-lo como bússola última do Universo. Nenhuma destas frescuras dezembrinas (?) faria sentido prático em Alfa Centauro ou, para ficar em casa, Netuno – onde as pessoas estariam comemorando a transição do ano 12.26 ao 12.27 (se o Jesus netuniano não fosse apenas um adolescente oleoso por lá).

29/12/2011

Se o padre disse...

Quinta-feira, 99.45% de 2011.

Tenho o pouco saudável costume de ir à Igreja, de vez em quando. Um psicólogo provavelmente rastrearia as minhas origens e diria que trata-se de um fenômeno natural, a velha Síndrome de Estocolmo aplicada à religião. Eu não tiraria a sua razão, ao menos não de imediato. Hoje os ares da liturgia católica me agradam mais do que agradavam há treze anos, e o silêncio da basílica é ideal para me fazer esquecer do marasmo que o meio-dia trás. É, para todos os efeitos, um santuário, menos na imersividade religiosa do que no pragmatismo político do termo. Contudo, santuário algum é imune à incompetência inerente dos homens que o sustentam, como há muito é sabido. Neste exemplo específico, volta e meia decido matar o tempo livre lendo alguma coisa por lá e – para o meu deleite – os padres católicos tem o ainda menos saudável hábito de escrever (ou pelo menos tentar). Essa série de postagens lidará com o conteúdo desses pequenos panfletos “informativos”, tentando contra-argumentá-los quando parecer necessário e/ou viável. Será um exercício divertido, garanto.

25/12/2011

Acabou o papel.

Domingo, 98.36% de 2011.

Natal de merda”, disse o amigo. “Ora, por quê?”, retruquei. Ele ficou em silêncio, encarando o azulejo. Deu outro gole na cerveja, balançou a cabeça de um lado para o outro, e fez um gesto geral, como se quisesse justificar a sua opinião com tudo aquilo que nos cercava. Luzes, pinheiros, dobraduras, bonequinhos de pano, presépios, pessoas bêbadas, para ele nada daquilo fazia o menor sentido¹. Não pude contornar a problemática, sobretudo pelo fato de concordar com a adjetivação – e, é claro, pelo fato de amanhã ser segunda-feira.

¹ – Ah, vão pra bosta, vocês cristãos. Ficam de mimimi porque o “Capitalismo” roubou o seu Jesus, mas todo mundo leva numa boa o fato do Cristianismo ter roubado a Saturnália e o Sol Invicto dos romanos, né? Poupem-me dessa choradeira.

23/12/2011

A estrada.

Quinta-feira, 97.81% de 2011.  

Na eventualidade de uma catástrofe planetária, como a humanidade sobreviveria? Não a espécie em si, mas o seu repertório de comportamentos e impulsos que supostamente nos  diferem de outros animais? O Cinema geralmente nos dá pelo menos duas opções para uma determinada problemática, se excluirmos o “não assistir” como terceira. Por exemplo, no caso de um filme de caráter eminentemente apocalíptico, você pode tentar suportar o espetáculo sonoro e visual do “2012” de Roland Emmerich, com todo aquele papo profético e pseudocientífico, ou, se estiver em um quadro mental mais equilibrado, pode aventurar-se pelo cinzento universo – digno de um Oscar que não veio - que John Hillcoat logrou sucesso ao levar para as telonas.

21/12/2011

Manganês [2].

Quarta-feira, 97.26% de 2011.

25 meses. Essa contagem de pouco implica em termos de glorificação - provavelmente não ganharei uma medalha por ela -, mas é importante dizer que cheguei até aqui. Oficialmente, em termos de autos, contratos e vias assinadas, nunca cheguei tão longe. O quarto de 100, comemorado hoje e a um ano bissexto do provável apocalipse (o mês do rubídio!), dá-se ao lado dela, que já protagonizou postagens anteriores – e, para a minha sorte, protagonizará muitas outras enquanto meus dedos forem capazes de digitar (e enquanto os maias estiverem errados). No mais, posso não ter medalhas pela achievement pessoal, mas divido o primeiro lugar do pódio com a melhor parceira possível.

20/12/2011

Yorkshire de piranha [2].

Terça-feira, 96.99% de 2011.

Fico razoavelmente irritado quando leio ou ouço alguém dizendo que certos seres humanos são menos dignos do que outros animais, porque nossa “consciência” aparentemente nos exime de interferências no meio “natural”. Bom, uma surpresa para vocês, é exatamente a nossa consciência que nos remete à destruição. O caso é que certas destruições são socialmente mais destrutivas do que outras, e não raro um Yorkshire vale mais do que as formigas sobre as quais você inadvertidamente pisa, ou do que as aranhas, baratas, ratos e mosquitos que você propositadamente envenena.

Yorkshire de piranha [1].

Terça-feira, 96.99% de 2011.

Quando eu tinha pouco mais de dez anos, fui formalmente apresentado à expressão “boi de piranha”. Minha avó explicou que certos bois, sobretudo os mais velhos e adoecidos, eram colocados à frente da boiada em travessias de rios, para que as eventuais piranhas presentes concentrassem seus ataques em alvos mais dispensáveis. Embora muitos boiadeiros gostassem de romantizar o costume, dando relevo à hombridade dessas criaturas em nome de um bem maior, ficou claro que isso jamais diminuiria o fato de que os bois de piranha não eram mais do que petiscos, e que tanto presa quanto predador eram convenientemente distraídos pelo bem da coerência do costume.

À alvorada do recente caso do indefeso Yorkshire, brutalmente espancado pela dona em um rompante de fúria, percebi que o mesmo esquema de distração segue firme. Veja, eu não pretendo sugerir que a vida do cachorrinho tenha sido oferecida em nome de um “bem comum”, ainda que tenha sido exatamente isso o que aconteceu. Não obstante, o tal “bem comum” foi menos da sociedade como um todo do que da criminalidade como um todo, pois por algum motivo a natureza humana nutre essa obrigatoriedade de concentrar sua indignação em apenas um problema, e ignorar os demais passantes. De curioso, fica a constatação de que as redes sociais são rios de correnteza leve: o Yorkshire serviu a menos de três dias de banquete, e agora as piranhas seguem ignorantes quanto ao que se passa em terra firme.